Um pedal na maior floresta do planeta

Por: Juliane Oliveira

O Caderno Sustentabilidade desse mês da revista Via Amazônia trás uma homenagem para a equipe Lobos MTB. Há 15 anos pedalando por Santarém e cidades da região, a equipe comemora no mês de setembro o aniversário de 10 anos da grande viagem de 1.496km, tendo como maior parte do trajeto a Transamazônica, uma obra faraônica idealizada e esquecida durante a Ditadura Militar.

Poeira, distância e desafios

Em janeiro de 2000, exatamente 10 anos atrás, os santarenos Emerson, Rosinaldo (Pião), Elton (Dentinho) e Joedson (Arraia) decidiram fazer um cicloviagem de Altamira até a Santarém (PA) pela Transamazônica e BR-163. As duas rodovias juntas dispunham de poucos quilômetros asfaltados. Enfrentar poeira e longos trajetos isolados seria o primeiro de muitos desafios.

Antes de colocarem o pé no pedal algumas surpresas: dois novos integrantes passaram a compor a equipe e mudanças também no trajeto. Eles agora iam sair de Belém até Monte Alegre, pedalando a maior parte na BR-230 – a Transamazônica. A rodovia que deveria marcar uma “arrancada histórica para a conquista deste gigantesco mundo verde” que é a Amazônia ficou esquecida em meio a selva e até hoje não se entende realmente quais os objetivos do presidente Emílio Médici em construí-la nem porque de uma hora pra outra ela deixou de ser importante. O que resta é uma estrada de chão vermelho que durante seis meses levanta poeira e nos outros vira um grande tapete encharcado de lama. Ruim para escoar qualquer produção ao longo da estrada, mas um terreno fértil para a equipe que não hesitou e pedalou 17 dias e conheceu ainda mais a hospitalidade do povo paraense.

A viagem


A equipe formada por quatro ciclistas santarenos e participantes da equipe Lobos saiu de Santarém no dia 5 de setembro e foi pedalando até a cidade de Monte Alegre aonde encontraram com os dois novos companheiros: Francisco Apolinário (o pão doce) com seus quase 60 anos e que já tinha feito outras viagens pela região e sonhava em viajar pela Transamazônica. E Negão, um rapaz que resolveu se aventurar junto e foi ganhando a simpatia do grupo e o preparo físico que tanto fez falta nos primeiros dias da jornada. A Prefeitura de Monte Alegre apoiou a viagem e custeou as passagens de barco até Belém e mais as despesas com alimentação ao longo do trajeto. Por essa razão o ponto de partida da viagem foi oficialmente a cidade de Monte Alegre, a cidade da arte rupestre no interior da Amazônia.

Depois de dois dias de barco até a cidade de Belém os ciclistas colocaram enfim as duas rodas sobre a estrada. Os primeiros quilômetros ainda não seriam pela Transamazônica, o que adiantou um pouco a viagem devido o asfalto. A equipe pedalou 246km nos dois primeiros dias pela PA-150, que liga a cidade de Belém a Marabá. Dali em diante a equipe passou a pedalar pela Transamazônica. O trecho mais difícil foi no início da rodovia devido a quantidade de serras. A quilometragem que seria de 80km caiu para 47km nesse dia. Passado o sufoco a equipe voltou a sua meta e ainda aproveitou os lagos e igarapés a beira do caminho pra se refrescar. E apesar de preparados para dormir na beira da estrada, os amigos sempre contaram com a hospitalidade dos moradores para uma boa noite de sono, fossem elas nas varandas ou no quintal de alguma casa.

As vidas que se cruzam ao longo da estrada são completamente diferentes. De um lado ciclistas que viajam com a liberdade proporcionada pelas bicicletas e pela força de vontade que diz até onde são capazes de chegar e de outro estão pessoas esquecidas há décadas que ainda hoje aguardam – se é que ainda existe alguma esperança – o tal desenvolvimento que não chegou.

Muitas dessas famílias vieram pra trabalhar e promover o crescimento do Brasil, mas hoje em dia o que fazem é rezar para chover em tempos de poeira e rezar para parar de chover em tempos de lama. Espalhados em 16 cidades e 134 comunidades, chegando ao número de mais de um milhão de moradores, eles se organizam de acordo com as duas únicas estações no ano: seis meses de chuva e seis meses de sol.

Os cicloviajantes atravessaram pequenas cidades que foram ao longo desses dez anos, e até mesmo desde antes, palco de grandes conflitos de terra, como é o caso da cidade de Anapu, Altamira, Medicilândia e Rurópolis, todas em território paraense. Nessa ultima acontece o entroncamento entre a Transamazônica e a Santarém – Cuiabá (BR-163). A partir daí as duas vias seguem juntas por 110km e depois de separam novamente. A BR-163 vai em direção a cidade de Cuiabá e a Transamazônica segue sua jornada em busca de Boqueirão da Esperança, no Acre, fronteira peruana, que é o seu ponto final, pelo menos no papel.

Com a Transamazônica ficando para trás, a sensação de um grande feito é o combustível para as ultimas pedaladas que continuaram pela BR-163 até a cidade de Santarém e seguiram para Monte Alegre pela PA-423. De Rurópolis até Santarém  o número de pequenos vilarejos comuns a Transamazônica dá espaço para grandes fazendas. Usando da criatividade e do improviso foi possível superar a maior das dificuldades: a poeira. Ao todo foram pedalados 1.496km, 16 dias de viagem na estrada de Belém até a cidade de Monte Alegre. Essa é até hoje a maior viagem já realizada pela equipe Lobos MTB que faz, desde o ano de 1995, quando surgiu, viagens pela região Oeste do Pará e Baixo Amazonas e sempre de bicicleta.

Sobre a equipe


A equipe Lobos surgiu em 1995. O número de participantes já foi maior durante esses 15 anos, chegando a 35, mas hoje só os apaixonados de verdade pela magrela estão juntos. Todas as terças e quintas feiras eles se reúnem no Parque da Cidade (Santarém-PA) e realizam passeios noturnos pela Pérola do Tapajós, além de trilhas e competições de mountain bike. Em novembro desse ano será realizado a 2ª Edição do ‘The Mountain’ em comemoração aos 15 anos da equipe. Serão 2km de pura descida nas proximidades da Serra do Piquiatuba, também conhecida como Serra do 8º BEC.

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Comentários: 3

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Uma emoção à 10 por Hora!

Legal o post Juh!

Um Abraço,

Diego de Paula

 

Chama a equipe Lobo pra vir pedalar em Mato Grosso;

 

Po galera muito interressante essa viagem…muito dificil mesmo!!
como vcs conseguiram se alimentar e se hidratar razoavelmente nessas condiçoes???
ha cidade de apoio no percurso ou somente moradores isolados???
chegaram a dormir na estrada?? levaram barracas?? to impressionado com essa viagem em local tão dificil.
Já cruzei os andes de bike. nada comparado a isso ai.
abraço
nelson.

 

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