Sustentabilidade

Um novo projeto de sociedade

De uns quatros séculos para cá criamos uma forma de nos relacionar com a nossa casa que tem se mostrado bastante nociva a ela. Em prol dos lucros, do desenvolvimento econômico, das empresas e dos empresários, transformamos a terra em um supermercado gratuito. Nós mineramos, extraímos, cortamos e utilizamos seus recursos em prol deste projeto de sociedade. A terra está ficando cinza e quente. Um grande número de espécies desaparecem a cada dia. Nossos ecossistemas, por sua vez, estão esgotados, os rios estão sujos, os solos contaminados e o ar poluído. Nossa casa está doente. O aquecimento global é como uma febre em uma pessoa, é um sintoma e uma forma de pedir descanso à sobrecarga.

A sociedade global, por sua vez, não parece estar nada bem. Vivemos na era dos antidepressivos e ansiolíticos. O cotidiano nos atropela por conta do excesso de trabalho e de outras pressões. A violência e a pobreza são generalizadas. A humanidade passa por uma forte crise de valores. Quase metade da população do mundo ainda vive abaixo da linha da pobreza. Nossa casa está doente e nós também, afinal ela e nós somos uma coisa só.

Diante da enfermidade da sociedade e de nossa casa, muita gente, mundo afora, tem buscado alternativas para o futuro da terra e de sua comunidade de vida. A sustentabilidade, ao contrário do que muita gente pensa, não é mais um modelo de organização de sociedades como o capitalismo e o comunismo. Não se trata de algo construído por determinados grupos de pessoas, mas sim um novo entendimento que está surgindo dentro das pessoas, pois estão compreendendo a necessidade de construir um novo futuro. A sustentabilidade é uma idéia-força, como argumenta Moacir Gadotti em Pedagogia da Terra. É uma cultura que está sendo construída tendo como norte um profundo respeito às pessoas, à terra e todas as formas de vida. Ela está sendo construída de baixo para cima, de dentro dos corações para o mundo.

Um dos grandes desafios da humanidade é construir uma cidadania planetária, uma sociedade global. Para isso, nós, os 6 bilhões de pessoas, precisamos combinar algumas regras de convivência. A construção de um novo relacionamento com o planeta depende desta união, de cooperação e de um possível consenso. Precisamos de uma ética global. A carta da terra é uma proposta, ainda em construção, desta possível ética. Ela contém 16 princípios norteadores para a construção de sociedades sustentáveis.

“A Carta da Terra está concebida como uma declaração de princípios éticos fundamentais e como um roteiro prático de significado duradouro, amplamente compartido por todos os povos [...] A Carta da Terra será utilizada como um código universal de conduta para guiar os povos e as nações na direção de um futuro sustentável” (SECRETARIA INTERNACIONAL DEL PROYECTO CARTA DE LA TIERRA).

A Carta foi escrita por importantes lideranças de todos os continentes do planeta. Nela, temos a presença de dois brasileiros: Leonardo Boff, filósofo e teólogo, que tem dedicado seu trabalho em prol deste novo projeto da humanidade. E o segundo é o Paulo Freire, pedagogo dos oprimidos, da autonomia e da liberdade. A carta o homenageia e reconhece sua dedicação em prol da construção de um mundo mais justo. Certa vez, ele disse: “Quero ser lembrado como alguém que amou os homens, as mulheres, as plantas, os animais, os rios, a Terra”

Há uma forte esperança de que somos capazes de construir um futuro bem melhor do que o presente. Somos, de certa forma, privilegiados, pois podemos ser parte desta importante transição. As gerações futuras poderão nos reconhecer como os precursores de uma grande guinada que a humanidade deu em prol de um saudável relacionamento com o mundo.

“A Carta da Terra parte de uma visão ética integradora e holística. Considera as interdependências entre pobreza, degradação ambiental, injustiça social, conflitos étnicos, paz, democracia, ética e crise espiritual. Ela representa um grito de urgência face às ameaças que pesam sobre a biosfera e sobre o projeto planetário humano e também um libelo em favor da esperança e de um futuro comum da Terra e da humanidade” (LEONARDO BOFF).

A profunda compreensão de suas propostas contribui para que as pessoas caminhem em direção a uma mudança interna e adquiram um novo entendimento sobre a vida. Com base nestes argumentos, ainda em construção, as pessoas tendem a sair da inércia e se movimentar em direção à mudança na forma que se relacionam com seu entorno. Afinal, é preciso reconhecer que a Carta da Terra apenas aponta caminhos para a construção da sustentabilidade. O desafio agora é colocá-la em prática, o que já está acontecendo, mas de forma bem tímida. Ela já tem sido aplicada em empresas, escolas, comunidades, lares, igrejas, etc. Este é um aspecto que precisamos ter a maior atenção: seus 16 princípios precisam ser inventados no contexto de cada pessoa e cada organização.

Carta da Terra – Parte 1

Carta da Terra – Parte 2

Neste sentido, o Projeto 10/Hora reconhece a Carta da Terra como seus valores éticos e se propõe a colaborar e contribuir para a construção deste novo projeto de sociedade. Clique aqui para acessar a íntegra da Carta.