!!Nde o-sema Paié-oka!!

Îaikó ka’a-atã-me
Yby-poranga, yby marã-e’yma…
Mamõ-pe paié ka’a’anga mongetáu…
!!Nde o-sema Paié-oka!!
O-pyta Paié-oka…
Îandé ramyîpagûama rekó-á-pe.

Em tupi antigo

Tradução:

Estamos no cerrado
Terra bonita, terra sem mal…
Onde os pajés falam com os espíritos da mata…
!!O Santuário dos Pajés Não se Move!!
O Santuário dos Pajés Fica…
…Morada de Nossos Ancestrais

Awamirim Tupinambá

Carnaval, carnaval

No carnaval que passa em mim,
Quero-quero, sinhoras e sinhores,
Desbaratinar nos corredores,
Fazer chover nos elevadores,
Dá piruetas na Av. Presidente Vargas!

Não sei bem porque, mas quero…
Mamãe me disse que sou artista,
Ainda que feio, ainda que pobre!…

No carnaval que passa em mim,
Quero-quero profanar o sagrado,
E sacralizar o profano
Bendizer o poeta maldito
E canonizar o bêbado sicrano.
Aquele perdido no meio da rua
O mesmo que passa pregando “A Palavra”
E profetizando o amanhã de nossos
dias apocalípticos!

No carnaval que passa em mim,
Quero-quero dizer tudo quanto é besteira,
Queimar a língua, tapar o sol com a peneira,
Quero sorrir, chorar, me estrepar nas estribeiras,
Levar na cabeça abacaxis e bananeiras,
Quero-quero alegria-alegria, saracotear nas ladeiras,
sem lenço nem documento
na beira
das estribeiras!

Mamãe, hoje eu não quero ser santo,
Nem vocação eu tenho,
Ainda que admire e reze todos os dias
Por Nosso São Francisco de Assis,
E Nossa Sinhora da Aparecida.
Só ele punha passarinhos na mão,
E só ela pra perdoar tanto pecado, mamãe…

No carnaval que passa em mim,
Quero-quero lendas caboclas, orixás,
Cirandas e maracujás
Palmeiras adoidadas, fulôres, meus sinhores
e fitas multicores
só pra fazer sorrir a menina Sivirina
que passa fome todo ano
e num tem no prato gelatina.

Quero-quero puxá peixeira de Lampião,
Rodar nesse terreiro doido-doido, fazê arrumação!

No carnaval que passa em mim,
Meu lirismo não cabe num só peito,
E ameaça estilhaçar, se repartir,
A luzir nos cabelos de Maria
E rebrilhar nas banda do Piauí.

Quero-quero o som alegre dos pífanos
o zabumbar da zabumba
seu Zé do Pife e as Juvelinas
tocando os coco por aí
o pandeiro de Zi Vitinho
e as macaquice do Thubin!

No carnaval que passa em mim,
Quero-quero explodir em sete cores,
ser um sol estilhaçado
só pra abraçar todos meus amores,
numa despudorada manhã de domingo
e me acabar no Farol da Barra,
se me pondo num horizonte praieiro cantado por Baby Consuelo,
no violão de Moraes…

No carnaval que passa em mim,
Quero-quero fazer um samba
com os meninos de Irará
terrinha boa de Tom Zé,
onde tem Acarajé
custa 2 reais e cinqüenta centavos,
e todo mundo quer,
e inda tem Dorival Caymmi pra preguiça acalentar…

Quero-quero meu cerrado mais festivo
goiabas, cambacicas e sabiás
colorindo as W3
cantarolando pelas quebra da Ceí
inté as quebra de Taguá.

Quero-quero um imenso ipê derrubando trocentos apês
Escancarando janelas
Levando à baixo edifícios!
Quero-quero a Babilônia derruindo,
E o Noroeste do mapa sumindo.

E a todos que estão burocratizando a vida,
contabilizando os amanhãs,
quero-quero que se percam,
ou se esgoelem em suas gravatas,
e se espantem com a vida, com a vida!,
com esse bloco carnavalesco que em mim grita
fazendo da Casa, senzala
fazendo da vida,
mais bonita!

“É bonita, é bonita, e é bonita!”

A. Canuto (Sabiá Duqueza)

EM NOME DO PROGRESSO

O progresso traz dinheiro
o dinheiro compra tudo
e o tudo vira nada
morre o homem
morre o rio
morre o bicho
e o tudo vira nada.

Em nome do progresso
é preciso trabalhar para viver
enquanto vive-se para trabalhar
e o trabalho dobrado
não paga o mísero salário
o prazer do salário
não paga a conta do trabalho.

Em nome do progresso
o trator derruba casas,
derruba árvores,
derruba famílias,
derruba o sonho
E ali chega o subemprego
o agronegócio
o trabalho escravo (que ainda existe)
o shopping center
o prédio de luxo.

Mas o progresso traz dinheiro
o dinheiro compra tudo
e o tudo…vira nada!

Deborah Gomes

Pajente tender

Em cima do santuário
Concreto
Tratores em Sentido
Operários cegos

Um dia hão de amar aquela flor
Como à flor que os pariu
E cada flor
De cada grão

Lucro comprado
Governo desgovernado
Tememos pelo chão
E pelos seus GRANDES passageiros

Eu, tu, ela, nós, vós, eles
Moramos na mesma bola
Comemos água e oxigênio
Vamos brigar agora?
Ou pela última garrafa?

Natália Honorato

Riscar o Chão do Sonho

Avante
Crianças do Sol
Crianças da Lua
Crianças do Sonho
A Terra colo mãe
seio fértil
Aconchega suas crias
Cresce a fé
Na crença em silêncio
Apreenda-me

Nas Tuas cores,
Nos teus cheiros,
Nos teus sabores

Aprendo meu sangue,
Ganho fôlego
Fortaleço-me

Pertenço a ti
Minhas crianças são para ti
Minhas danças são para ti
Terra Mãe

São tantas filas
Tantas ruas
Tantos destinos diferentes
Num mesmo caminho
E pouca memória
A história presa nos livros
As famílias abandonando os filhos
Nas escolas, no parque, no abate do consumo
E a tradição pelos cantos
Nos cantos tribais
Nos contos ancestrais
As histórias livres
Riscadas no chão
Apontadas no céu
Aquecidas na fogueira
O Espírito presente
Pressente a guerra final
A Chama e o Chamado
Pajés e xamãs
Cuidar de si,
Cuidar de mim
Se ocupar de si
Se ocupar de mim
Terra Mãe

Éveri Sirac

Passarema

a todos passarim que reinam por aí

Sabia sabiá
Qui bentivia o bentivi
Bentivoando por aí
Quero-quero querendo
Beija-flor beijá?

Sabia sabiá?

Qui inquanto
bentivi bentivoava
Veio hômi ruim com suas tralha
E levô as flores
Juritis e beija-flores
E levô tudo de rondão?

Sabia sabiá?

Intão, porque patativas
Tesourinha
Tratô véio de hômi ruim
Corta-caminho de bentivi
Se bentivi
Só queria beija-flor
a beija-flor
beijá?

A. Canuto (Sabiá Duqueza)

Aqui

Foi aqui que eu vi a flor do maracujá selvagem
Tomei o suco de limão com gengibre
Aprendi a fazer a tintura do jenipapo
E vi a mágica da pintura acontecer
(Pra quem não sabe, você passa a tinta
Mas a cor só vem depois)
Foi aqui que eu coloquei banana pros sagüis aparecerem na mangueira
Foi aqui que ouvi o espírito do gavião guerreiro cantar
Onde em volta da fogueira ouvi a última profecia
Onde fumei a xanduca pra passar espirro
aqui onde produzimos pão tribal
É um lugar propício
Um lugar escolhido não aleatoriamente
Lugar sagrado

Aqui também comi manjericão ainda não tão domesticado
plantamos milho e feijão preto
fizemos caxiri,
onde as mulheres ouviram jurema
enquanto os homens assavam batata doce
Aqui aprendi muito sobre mim, sobre povo e sobre a nossa Terra
Aqui recebemos a visita de pessoas de todo o mundo
E escutamos todas elas dizerem:
“aqui nos sentimos bem”

E foi aqui também que vi derrubarem o barraco de um parente
Enquanto sua menina pequena chorava em pânico
Aqui vi também a casa de outro parente ser incendiada covardemente
Enquanto o parente estava viajando
Aqui vi lotearem nossa terra, e venderem por dezenas de milhões cada pedaço
Enquanto nós não cansávamos de alertar sobre a ignorância do concreto
Aqui vi os pequizeiros carregados serem ceifados por tratores
Vi as corujas piarem observando com tristeza ao longe
Aqui vi cavarem o bucho da mãe Terra como se fizessem histerectomia
E então foram plantando seus esqueletos de concreto
Plantando covas umas sobre as outras
E os mausoléus foram sendo erguidos
Enquanto nossos parentes tiveram que enviar suas famílias para um
lugar mais seguro
Enquanto nossos parentes recebiam ameaças de morte
Enquanto nossos parentes resistiam a toda forma de terrorismo psicológico

E chegou o dia em que os cagadores de concreto tiveram que assumir a guerra
Tiveram que assumir sua condição de inimigos da natureza e dos filhos
e filhas da Terra
Mandaram seus exércitos, suas tropas milicianas, seus comboios, seus
contêineres,
Caminhões, retro escavadeiras, coronéis de férias, helicópteros
E nesse mesmo dia vieram os guerreiros e guerreiras do planalto
Entraram na frente dos tratores, derrubaram cercas, derrubaram guaritas
Armados com a certeza de seus corações
Mostraram que não seria tão simples assim rapar a cabeleira na maquina zero
Aqui mesmo outro dia, onde fizemos taparem os buracos,
E o cercado caiu, uma, duas, três, e quantas vezes forem necessárias
E então a roda em volta da fogueira começou a ficar cada vez maior
A cada dia uma voz a mais nas rodas de violão e batuque
E vieram as senhoras, os senhores, as crianças, jovens acompanhados de suas mães
Vieram guerreir@s de São Sebastião, de Planaltina, de Sobradinho, de
Taguatinga, Samambaia
E os tratores tiveram que parar.

Aqui vi o governo mandar 800 policiais defender duas empresas
E prender quem tentasse impedir o crime
Vi pela TV o repórter dar a notícia como se fosse aquela do Alemão
Da pacificação ostensiva a bala
Vi a covardia dos cacetes nas meninas nos rapazes
Vi o choque elétrico e o gás de pimenta
Como se o mundo fosse uma grande caixa de Skiner
E nos os ratos famintos
Vi as prisões políticas por desobediência civil
E até secretário pedir pra polícia em greve abrir a delegacia
E vi a polícia impedir os familiares d@s pres@s de entrar.
Vi policiais mandando caminhões atropelarem pessoas
E ainda vi depois essas pessoas serem presas por serem atropeladas por
caminhões.
Não estou falando de 1968
É 2011.
Não estou falando de generais no poder
Estou falando do “partido do ABC”
Não estou falando de Marabá, Bico do Papagaio, Altamira, Tefé
Estou falando de Brasília
Capital do Brasil
Sim!

Ainda vemos o colonizador com suas estruturas institucionais
Tratar nossos parentes a base da porrada
Sumir processos, destruir provas, como as antigas queimas de cartórios
Deslegitimar a ciência sem argumento nenhum
Enquanto agem a favor da destruição de nossa terra
De nossa memória, de nossa ciência.
Para vender seus túmulos de concreto para quem não tem onde por dinheiro
E terem o cinismo de por uma moça sorridente na TV pra dizer que a
cidade está mudando pra melhor
Para nós as coisas só tem piorado
Já não temos mais tanto tempo para alimentar os sagüis
E com tanta destruição a nossa volta ele estão até com medo de aparecer
Onde vi a flor do maracujá selvagem, restam montes de terra removida
Restam pedaços de troncos retorcidos
Estamos em volta da fogueira ouvindo o que nossos corações tem a dizer
Sabendo que logo cedo e a cada dia uma nova batalha

E no meio dessa batalha
Vi florescer novos sorrisos
Vi outra forma de fazer casas
Vi tentas improvisadas surgirem para abrigarem poetas
Musicistas, malabaristas, artistas em geral
Vi grandes guerreir@s entoarem seus cantos em nossa defesa
Enviando tanta energia a nossos corações

Aqui onde vale mais o amor
A afeição, o trabalho coletivo
Onde não haverá túmulos de concreto
Apenas mudas
das sementes que brotam como suor dos nossos poros
e fecundam a terra
Aqui
No Santuário Sagrado dos Pajés

EV

Relato sobre o 2º Sarau Pisaligeiro

Nada melhor do que comemorar a proclamação da República – “res publica”, coisa pública – em um dos novos campos de batalha entre duas concepções civilizatórias ou culturais: a apropriação privada, capitalista e predatória do Setor Noroeste frente a defesa do direito de uma minoria, a afirmação identitária de povos originários abrigados no Santuário dos Pajés.

O acesso ao Santuário, pelo Colégio Leonardo da Vinci, ficou prejudicado em razão da forte chuva. Um lamaçal pavoroso! No meio do caminho, aproveitamos, Neilma (minha esposa) e eu, para fazer a caridade do dia, ao dar carona a um jovem que acabara de ser largado por seu pai ou sua mãe, provavelmente, que não quis se arriscar na aventura do “mini-rally do cerrado”. Coincidentemente, a música que tocava na rádio e que nos embalou até a chegada foi “Que País é Esse”, do Legião Urbana. Essa foi a prova de fogo do pobre Clio 2004, que sobressaiu muito bem, por sinal.

Previsto para começar às 14h, o 2º Sarau Pisaligeiro atrasou. É duro ser pontual. Paciência.

Quando chegamos, havia cerca de 30 pessoas. Algumas ainda estavam armando, improvisada e precariamente, as tendas.

Engels Espíritos (um dos maiores gaitistas do Brasil), que seguiu, logo atrás, o nosso carro no mar de lama,  Ellen Oléria (multi-artista brasiliense consagrada) e Zé do Pife marcaram presença, até então. Estavam passando o som em um palco singelamente montado em cima de duas armações de estrado.

Apesar – ou por causa – da “cabeça ativa” de muitos, o ambiente era ordeiro.

O entorno de vegetação nativa densa e a presença dos índios foram inspiradores.

A juventude que acorria ao “happening”, com seus trajes e adereços típicos, suas compleições e tipos físicos tão característicos, se congraçava de maneira espontânea e natural. Aliás, ali se configurou uma alma coletiva mágica. Que clima de fraternidade energizante; que espiritualidade solidária revigorante! Como diria, se não me engano, Fernando Anitelli: um ponto de encontro de “pessoas especiais”! Ou Netinho de Paula: “gente bonita e inteligente”! E acrescentaria: a confluência rara de seres iluminados!

Ficamos o tempo necessário para nos familiarizarmos com o terreno e as personagens. Saímos duas horas e meia depois.

O pequeno estacionamento interno e a estreita estrada de terra batida estavam apinhados de carros. Uma fileira crescente. Acho que a quantidade de 30 pessoas iniciais na nossa chegada saltou para 200 nesse ínterim.

Ao passarmos no descampado onde se deram os principais embates, nos deparamos com um comboio de policiais fortemente armados, entre 15 e 20 viaturas, que ia em direção ao Santuário. Cortamos por dentro do Setor Noroeste, povoado por esqueletos de concreto. A entrada norte estava sendo bloqueada pela operação policial. A chapa estava esquentando…

Mas valeu muito a pena!…

Pois bem, até a próxima edição!

Awiri!

Daniel Pereira da Silva Supernova – Movimento Contracultural pela Libertação da Periferia

I

uma borboleta me distrai
asas no ar
uma floração de cores
se espalhando
no espaço

nada sei da correria das cidades
nem das janelas fechadas
aqui as tenho abertas
escancaradas para o mundo

um sol
um chapéu
joelhos dobrados
de cócoras acendo um cigarro

um sol que arde
vermelho como um tição
chicoteia nas moleira
dos que passam
um sol vermelho como um tição
alumia os ipê
e chicoteia as pedra sobre o chão

e eu gosto de ficar assim
a fazer nada
quietinho à sombra duma árvore
observando o trabalho silencioso
dos calangos
comendo mosquitos ao sol
e dos passarinhos
passarinhando
melodias na amplidão

e o cerrado inteiro é um festejo
de cores, de amarelo-ipê, se tinge meu coração.

A. Canuto (Sabiá Duqueza)

Por que digo SIM ao Santuário dos Pajés?

Simples:
-Porque lá vivem homens, mulheres e crianças em respeito, harmonia e comunhão com a terra há mais de 50 anos.
-Porque só há respeito com a terra se há respeito com as pessoas que com ela convivam em harmonia.
-Porque essas pessoas, índios, fazem parte da história de nossa cidade e essa história, de amor para com a terra, nossa terra, deve continuar viva.
-Porque esse é um legado imaterial (cultural) e material (o Santuário dos Pajés mantém o cerrado vivo oferendo um ar mais qualificado para a cidade).
-Porque Brasília ainda não resolveu seus problemas de infraestrutura básica de sua periferia, nem de seus condomínios (regulares e muito menos dos irregulares).
-Porque há problemas de energia elétrica em toda cidade e esse bairro o agravaria, como agravaria também e muito o problema de transporte.
-Porque desmataria parte do Parque Nacional de Brasília.
-Porque não resolveria o problema de moradias da cidade, na verdade só agravaria pois a especulação imobiliária é uma das fontes do abismo social de nossa cidade.
-Porque não gosto de propaganda enganosa, o noroeste não é, nem de longe, um bairro ecológico, é só olhar a devastação que estão fazendo.
-Porque, acredito, que quem possa comprar um apartamento de R$2.000.000,00 ou de R$4.000.000,00 na planta já tenha sua “casa” própria e isso só fortalece a especulação imobiliária e o abismo social de nossa cidade.
-Porque desalojaria corujas, micos, tucanos, lagartos etc. Meus amigos, amigos de nossa terra.
-Porque nasci aqui, em Brasília, e mais do que conhecer eu sinto e amo essa cidade.

Da poesia de uma folha caindo… de um ar limpo subindo… de uma flor se abrindo… de um João-de-Barro construindo… de uma criança sorrindo… eu não abro mão!

Sids Oliveira

Faroeste Caboclo

Foi um dia um pouco pesado, aquele. Um pouco pesado por ser muito dia,
por ser muito ele, por ser tanto forte. Cheguei lá, e pus os meus pés
em terra. Terra mato, terra verde, amassada por tantas mãos. De um
lado, tratores. Do outro lado, tratantes. E nós, encurralados, em
canto nenhum, apenas permeando com o nosso grito pelo silêncio. Nossos
passos eram a negação do pretérito, nossa fala era a expectativa do
futuro do presente, e nossas ideias não tinham espaço nem cronologia,
ainda estavam meio perdidas nas gramáticas correntes.

E vi ali, aqueles homens chegando, com uma postura impecável, e olhos
escondidos por trás de capacetes. Mãos escondidas por trás de
cacetetes. Discursos escondidos por detrás de surras e pancadaria.
Aqueles homens, eles estavam todos fantasiados, e dentro destas
fantasias, esqueciam – esqueciam que eram gente. Esqueciam que batiam
em gente. Porque ali o mundo deixava de ser mundo e virava campo de
batalha. E eles passavam a ser soldados. Alguém mandou, alguém os
mandou bater. E bater era um trabalho. O trabalho era a veemência, o
martelo era a coacção.

Conosco, perdidos no meio desta terra toda, estavam pintados os
nossos. Com flechas e arcos, com sangue nos olhos. Neste dia, vi de
longe o Santxiê, de passos apressados, seus olhos corriam de um lado
pro outro. Parei-me um pouco nesta luta, peguei a minha câmera e me
aproximei.

Cheguei mais perto, enquadrei-lhe em meu olhar, e fotografei sua
tristeza. Ao seu passo corrido, o segui, e fotografei o seu silêncio.
Olhou para mim. Parou e deparou-se com as minhas lentes. E foi então,
foi neste momento que consegui fotografar a raiva. A raiva o
carregava, carregava-lo nas costas, e o derrubava seguidamente.

Encantada com aquelas imagens e indignada com estas imagens,
percebi-me ali, no meio de um faroeste, com pioneiros em um canto,
cowboys em outro, todos caboclos, armados de irracionalidade. No meio
deste deserto, estávamos todos nós, desarmados, tentando lutar para
não morrer de sede, com a voz seca e um nó na garganta, tentando fazer
escutar a nossa palavra. Em nossa volta, aqueles homens todos, sendo
mandados por outros Homens todos, que são mandados por alguns papéis
verdes.

Por alguns papéis verdes. Impressão tosca. Brutalidade rude. Massacre
emocional. Irracional. Ou tão bem pensado. No meio daquela guerra, eu
vi que o Homem realmente não tem soberania. Não tem soberania nem pra
ser um pouco mais Homem. Não tem soberania nenhuma pra ser um pouco,
apenas um pouco mais mulher.

Paola Lappicy

A Lenda do Cachorro Guerreiro

Salve Cachorro Guerreiro
Cão da Tribo Fulniô
Dentre os cães que há no mundo
O mais nobre companheiro.

Quando PM perguntou
Que fazia pelo caminho
Que não saía do meio
Guerreiro só arrematou:

- Quem chegou aqui primeiro?

***

Desse modo triunfou
Na memória se firmou
O mais nobre, Cão Guerreiro,
Cão da Tribo Fulni-Ô.

***

Texto de A. Canuto (Sabiá Duquesa) / Vídeo por Tauanam

Alvorecer da planta

Srs. Brasilienses,
Funcionários do alto escalão
Ministros e Senadores,
Venho por meio deste poema
Solicitar vossa atenção
Para um iminente problema
Que se abriga no fundo desse chão.

Uma planta
Cujo nome não se sabe
Nem a cor ou o perfume: brotará no solo do cerrado,
a hora certa, não se tem previsão.

Seus frutos e raízes – desconhecemos.

Ela brotará
À revelia de todo e qualquer regulamento
Assinado por qualquer juiz ou parlamento, e dará seus frutos conforme a estação.

Furiosamente brotará, ameaçando florescer
acima de qualquer edifício e monumento
as leis mais rígidas – cogita-se – não poderão
conter sua furiosa vontade de viver.

Senhores,
Essa planta terá sede de sol e de vida
Tanta, mais tanta, que desconhecerá
Qualquer projeto urbanístico, seja ele tombado ou não.

A planta é selvagem, senhores
A planta ignora tratados políticos
E qualquer arquitetura: a planta é subversiva.

A planta não se curvará perante os Homens da Lei, algozes e capataz,
A planta desconhece a autoridade policial
E a patente dos generais.

A planta é subversiva, senhores, não tem pra onde correr
E eis que chegou – para vosso grande espanto – seu tempo de alvorecer.

A. Canuto (Sabiá Duqueza)

O tempo e o não tempo – O vilão, o amor, o relógio e a salvação

Será o tempo o vilão?
O não tempo o amor?
O vilão tem o sistema,
o amor virou problema?

Será o tempo, inimigo da mudança?
E o não tempo, apenas pra criança?
Ah, que saudade da infância!

Será o tempo o mais importante?
O relógio, o senhor da humanidade!
A figura do instante,
dissintonia a partir de uma certa idade?

Não será o tempo o problema?
O que nos afasta de tudo ao redor,
nos enche de serviço,
nos cansa alma e mente, se tornando o principal predador?

Será o não tempo a solução?
A busca pela salvação!
A sincronia perfeita,
entre o homem, o planeta… a razão!

Sofremos humanos nas colheitas,
depois… revirando pra comer, ou limpando as lixeiras!
Abusamos um dos outros,
escondemos nesse “tempo” os problemas verdadeiros!

Será o tempo, inimigo da mudança?
E o não tempo, apenas pra criança?
Ah, que saudade da infância!

Desculpe-me o pedaço burguês…
o que na infância tu fez?
O tempo, real e ingrato,
já rouba o não tempo, lhe mata de fome, o explora, lhe joga num orfanato!

Seguir o relógio,
enche-lhe o de importância,
esquecer-se da criança…
cansado, ignora a própria vida, lhe põe como vencido, subordina-se a milícia!

Milícia dos ponteiros,
portadores de dinheiro,
detentores do seu tempo
lhe roubaram o companheiro!

Trabalho duro e cansativo,
que lhe impede de pensar
é esse que lhe querem,
não dão o “não tempo” pra conscientizar.

Na paranoia de um velho tempo
acompanhamos esses ponteiros
sempre chatos e circulares
gastamos de um mundo, ouro e fundos!

Ponteiros circulares,
que apenas apressam nossos guerreiros e enganados trabalhadores…
que mascarados em marcas, como velhas coroas, distinguem pessoas!
Tenhamos pena de nós, apontemos em nova direção e usemos o não tempo como nossa salvação!

Diego de Paula Campos Castro

“onde vai dá tanto desimbêste?”

Quem se achega ao Santuário dos Pajés logo vê cobaíba, aroeira, ipê, jatobá, um festejo de árvores nativas do cerrado, passarim de enchê de luz as vista – os Fulniô batucando, e quem vai se achegando também vai se inteirando da vida com a terra, planta-se um ipê aqui, uma goiabêra ali, um pequizêro acolá; uns mais achegados arriscam uma pandeiração nas batucadas, se apruma nos pife, bate triângulo e quizumba na zabumba. Até certo tempo atrás – dizem – nada perturbava o canto do juriti – o diabo é que há menos de uma légua, bem perto dali, estridente grita, esperneia com uma fome desesperada de destruição os tratores da Emplavi. Esses tratores, diferente dos passarinhos, não cantam nem avoam; só fazem zoada e desmatação. Chegam derrubando tudo, sem um pingo de dó arrastam árvores ancestrais plantadas pelos índios há anos: caem por terra umbaúbas, guarirobas, pau d’balsa, ipês, cobaíbas, cai tudo, e num sobra nada por onde essas peste passa, só a poeira vermelha nas vista… E a gente simples que se sente rica com tanto passarinho, bicho e planta, em desalento se pergunta: pra quê isso, meu Deus, pra quem serve tanta destruição, onde vai dá tanto desimbêste?

a. canuto

“Se junte aos que lutam pela esperança”

O tempo traz o peso para os ombros e com passar do tempo todos os seres mais tarde ou mais cedo se curvam…. seja pelo peso das responsabilidades ou somente a lei da gravidade….
Levantar a cabeça e olhar para o céu, ver nas estrelas esperança de que para esse mundo há de haver mudança….
Mudança essa cheia de bem aventurança que resguarde nossas crianças desse tamanho peso que carregamos em vão….
Nada há para carregar se você não carrega sobre si a responsabilidade dessas matanças, desmatanças que poluirão o futuro de nossas crianças…

Deixe de lado todo esse peso e se junte aos que lutam pela esperança e com a fé, siga o seu coração e não o sistema que te aprisiona, essa prisão que te corrói até os seus princípios…. Que te tira a postura e diz que a vida é dura sem te deixar ver…. toda beleza que há na natureza e com toda essa loucura te deixa na fissura de ter e não ser o que há de melhor….

Mas para viver é preciso ser e crer, não ter, mas sim saber…
Saber o que é verdadeiramente valioso para o ser…

Viver e ver o plano que o planeta traçou, como um rastro de cometa que ficou…

Kamila Xavier

Para as Mudas de Nicolas Behr

Ei Nicolas
Sonhei que sua poesia
Saía do papel
A w2 na blitz fazendo um 4 pro soldado
A w3 semafílica
A L4 constipada
A L2 divorciada da Esplanada
A L1 num beco sem saída

O Eixo Monumental perdendo a cabeça na rodoviária
Os Três Poderes afogados no Paranoá
A tocha queimando com um pavio o Pombal
O Conic e Conjunto Nacional fazendo as pazes na fila do Teatro Nacional

E o índio candango dizia:

“A licença deputados
A licença senadores
Todos os telespectadores
Desse Brasil desavisado
O ser tão gente
Respeitem o Cerrado
Este solo é sagrado
Casa de nossos antepassados
A vida de nossos sucessores
Não se passa por cima os tratores
É preciso ter respeito e cuidado
Tudo um dia cai
Mas nosso chão nunca é derrubado”.

Éveri Sirac

Sem título

Os homens dividiram o mundo em linhas imaginárias,
formaram leis afirmando serem igualitárias;

Tentaram acabar com as diferenças;
Diferenças essas
que formariam ideias diversas;

Disseram que isso é progresso,
inteligência;
Mas foi na realidade
o fim da vida e o começo da sobrevivência.

Rodrigo Oliveira

Ocupando as ruas

Ocupando as ruas
Versatilizando as línguas

Nosso canto é forte
Parede e concreto
De grito pro norte

O índio no pranto
O gordo como santo

Essa lama fedente
Realidade cadente
sem charme nem dente

carra vaia sapi lado
coxa frente cahara tru
nexo crente
dada das possibilidades
das grandes existências

do canto dessa gente
surge o fronte

por que só nessa luta
de charme latente
apesar d´altos intermitentes
nos inspiram e vencem

Igor Aveline

GRITO

Enquanto houver grito em minha garganta,
haverá paz em meu coração.
Meu grito não fará vibrar os vidros do poder,
mas poderá assustar os distraídos que me cercam.
Assim,
os vidros que protejem as canetas injustas refletirão uma multidão de aflitos.
As canetas serão só canetas,
os vidros só vidros.
E os aflitos se saberão aflitos.
E poderão,
num forte grito,
quebrar os vidros e as canetas,
que já serão um só, uma só fragilidade.
Pois o poder que se protege se limita
a palavras dentro de um aquário
que já morreram na água sem vida
e por falta de espaço,
por tanta sobreposição,
perderam a razão…
O poder dos aflitos são palavras soltas no ar,
das quais qualquer um pode se apropriar.
Aflitos são uma multidão formada de muitos quaisquer um
que ainda possuem um curto fôlego de sobriedade.

Uso este suspiro para gritar.
E quem escutar este aflito,
por favor,
continue seu grito!

Eros Trovador

BADERNA

Dentre vários pensamentos me ative para um deles: e se o cerrado virar pó?
Viraremos juntos, pois foi dele que viemos.

Viemos do mundo, viemos da terra e não dessa mera baderna.

Julia Barbosa

Um sonho

Em um sonho eu ando por uma Brasília viva, tomada pelos ipês e ingás e todos os seus primos. Seus velhos ocupantes ou mudaram-se ou foram mudados, aprenderam a viver como os calangos que são os ocupantes naturais dessas terras. Uma longa caminhada pelas asas revela estranhos artefatos, pirâmides e retângulos alinhados, inscrições talhadas na pedra, legados de uma era em que a cidade era o centro para um estranho sacerdócio que cultuava um misterioso e abstrato demônio cujo mantra, ordem e progresso, ordem e progresso, continuaram recitando até os últimos momentos, em que as chuvas os alagavam e os povos os ignoravam e sua força, fruto de uma intensa histeria coletiva, enrigecida por armas e cassetetes, esvaia-se entre seus dedos como a areia do solo maltratado que acreditavam ser idêntico ao seu sinistro deus.

Mesmo após a longa caminhada do tempo, em suas largas passadas de séculos, os resquícios dessa loucura ainda sobrevivem, aforismas de concreto para nos ensinar a potência que a tolice tem, a facilidade com que ela se espalha e perpetua, e o destino final que todo projeto baseado nesse tipo de loucura chegará. Atravessando os escombros de um estranho templo que procurava imitar, quando novo, numerosos outros templos que já se encontravam arruinados, sinto um cativante pulsar me chamando para o oeste, onde as ruínas de grandes blocos monumentais se confundem com as mais altas coroas das rainhas dessa galeria molhada e ancestral. Caminho ao meio de comércios que viraram ninhos e viveiros e divido a água do rio que corre ao longo do pavimento rachado com uma família de capivaras que já não se assustam ao ver um ser de minha espécie passando. Já não somos tão relevantes.

Sigo o pulsar até que tudo à minha volta, as cigarras e sibipirunas, os angicos e os lagartos todos harmonizam em um vívido e pleno acorde que ecoa pelos ares no ritmo e timbre de um imenso coração, tum-tum… tum-tum…tum-tum… e possuído por uma insaciável vontade de me juntar a esse coro em que a vida se celebra incessantemente, vou correndo até o epicentro que me chama com mais força e amor à cada passo que dou. E chegando a um ponto cercado por árvores majestosas, ao lado de velhas fogueiras, encontro a fonte, a semente semeada à tantos anos atrás que bate como um coração verde com uma vontade inesgotável de existir, com um amor pleno à beleza que o cerca, com a certeza da vitória final contra as forças da tolice humana. Me deito e vejo a luz brincar com as folhas que dançam com os ventos e pássaros e insetos, respiro profundamente o ar que vem pulsante, no ritmo do meu coração, e sei que estou onde deveria estar.

Diogo Saraiva

Levanta!

Levanta Chico
todo sorridente,
levanta a voz
encanta a gente!

Chico,
venha mais uma vez com a gente,
levante a voz
seja mais sorridente!

Levanta Chico
mato sumiu.
2011 e índio sendo expulso,
na capital do Brasil.
Mais um vão se abriu,
prédio de luxo surgiu!

Levanta Chico
venha, é urgente!
O mato sumiu,
mais um prédio de luxo, 72 apartamentos, 12 duplex, surgiu!

Na voz bonita
na rima cantada,
num papel em branco
com lindas linhas desenhadas!

Levanta Amigo
todo amoroso,
levanta a cabeça
encanta a gente!

Amigo,
venha mais uma vez com a gente,
levante a cabeça,
seja mais sorridente!

Levanta Amigo
Mais um índio expulso, um “acordo comprado”
mais Cerrado sumiu,
mais uma empreiteira… maquinário surgiu!

Levanta Amigo
venha comigo,
muita vida sumiu
maquinário surgiu!

Na voz bonita
na rima cantada,
no papel em branco
na linha desenhada.

Levanta Chico
defende esse Cerrado,
com toda sua rima,
vai, nos anima!

Levanta Amigo
defende esse mato,
com suas linhas!
Vão, desenhos dos nossos dias!

Chico,
Na voz bonita
na rima cantada!

Amigo,
No papel em branco
na linha desenhada!

O mato sumiu,
mais um prédio surgiu!
O Cerrado sumiu,
maquinário surgiu!

Pobre gente, podre mente,
tudo isso por dinheiro, tudo isso ilegalmente!

Levanta!

Diego de Paula Campos Castro adaptação do texto “Levanta”
original em www.dezporhora.org

Sigo o toque

Índio cercado
Arame farpado
O cerrado vira prédio
E você, vai ficar parado?

Polícia Passiva
Milícia armada
Ignoram a juíza
Mas de mim você não passa!

Eu sou o planeta
Pé no chão e braço dado
Sei que tenho o meu irmão
E não fico aí, parado.

Tupã ta comigo
As plantas e os bichos
Incessante movimento
Ao céu vou respondendo

Não fica parado
Se compreende na união
Acompanha o tempo terra
e provê transformação

Uma hora entenderão
Por bem ou redenção
Damos a chance de saber
Que dinheiro é ilusão

Túlio Starling, continuando poema de João Gabriel Aguiar

O grito do cerrado

Singelo verbete omisso que veio a me “informar”
Tratado sem muita importância em um canto de jornal
No meio dessa gente enganada que se põe inerte
E sofre e se omite sem cogitar ir a luta.
O grito na garganta. O grito não adianta.
O grito rasga e sana a vontade de gritar.
E as bocas já não falam, e o calar já não cessa
E isso instiga a raiva de quem não se esquece ter voz.

Sob os olhos da cobiça
A guerra, a terra, a ganância.
Sagrado cerrado rentável
Aos olhos de quem se ergue ao ferir-te.
A queda da floresta é pra bancar a festa
de quem com a floresta nunca vai se importar.
O grito do cerrado em sua tristeza implora
Murmura ao pé do ouvido pra dele eu me lembrar.

Onli Abreu

Brasil Atual

Só mentira, coisa ruim. Essa disputa de poder
Faz o povo, que é feliz, não ter nem mais pra onde correr
Correr porque? Se não fez nada
Se vai pra rua, leva paulada
É reprimido, mas sempre reage
Com a esperança que fica guardada

Guardada no peito de um povo que sonha
Trabalha e batalha no fio da navalha
Que samba, que canta, que pula fogueira
E solta o sorriso, toda sexta-feira

Essa merda de informação
Que é toda manipulada
Cadê o direito? Cadê a liberdade?
Que, junto com a expressão, agora fica aprisionada

Cadê o amor? Cadê o valor?
Cadê a união e a humildade?
Vê se acorda ! Abre o olho,
e vá em busca só da verdade !

Por isso tudo, fiquem atentos
‘Korrupção Kom Konsciência’
NO NOROESTE: ou tu mata, ou tu morre
Mas morre lutando, pela sobrevivência !

João Gabriel Aguiar